Pra caber no abraço

Narrar, mas, desde já a realidade tem sua própria história. Não dá pra fazer das palavras os dezoito metros quadrados de um fim de semana qualquer. Pequeno assim para caber no abraço, aí entra o cara de patins em pleno Nélson Cavaquinho e pergunta se tem Gatorade. 
Conhecer o Bip é necessariamente tentar entender como não o conheceu antes. 
Vista de cima, Copacabana é uma curva só. Por dentro, ela é a única explicação para todos nós existirmos juntos – a cem metros de onde o ônibus rasgou o asfalto, tem alguém lembrando uma valsa. 
Quando as regras mandam e desmandam nas idades é hora de dobrar a esquina e ver o mais velho não sendo senhor e o mais novo não sendo menino. No exato momento em que a porta do bar é um feixe de gente, o samba deixou de ser apenas música. Cordialidade, mas sem mito – e um rosto meio-século hesitante compartilha de um sorriso desadolescendo. 
Não pode falar, não pode comer, não pode aplaudir. Domingo nenhum. Assiduidade, mas sem excessos, e dizem por lá: botequim é para sair bêbado e não para chegar bêbado. De mais a mais, o Chiquinho manda avisar que as vagas pra maluco estão esgotadas. Ah, coração de mãe. 
Cadeira na calçada nos dias de mansidão no bar, como se as noites do Rio fossem somente quentes. Aliás, a cidade é engraçada. Se empenha no cinismo e larga o dedo como se não houvesse Bip-Bip, afrontando truculenta quem dedilha tamborim. 
Lembrar é melhor que definir: em pé, e do lado de fora, sempre cabem mais dez. Lugar de papo despretensioso, porque só assim é papo, porque é como nascem idéias: política, música, literatura. Uma boa escola para se aprender a colocar apelido. Quem não entender isso, na hora da bronca do Alfredo, vai ficar invocado e já na segunda faz planos: beber sangue, doar água e economizar cerveja.

Texto publicado no livro em homenagem aos 40 anos do bar Bip-Bip.

Contato

manuelatrindade2@gmail.com